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INÍCIO EM MARÇO DE 2018

A SAÚDE MENTAL NA VISÃO DO YOGA

Os profissionais de Yoga tem muita dificuldade de classificar o que fazem, porque muita gente afirma que yoga é ciência, filosofia, arte, terapia ou até mesmo ginástica. Para entender melhor essa questão veja meu vídeo clicando aqui e o artigo clicando aqui.

 

Apesar de Yoga ter seu próprio lugar, ele pode contribuir com a saúde daqueles que praticam, embora não seja exatamente uma terapia, seu acervo de técnicas pode ser usado terapeuticamente. Futebol não é terapia, equitação, também não, natação igualmente. Todas essas atividades são esportes, contudo são empregados sem problema algum como coadjuvantes para o tratamento de uma gama considerável de problemas. Nas mãos de um terapeuta habilidoso, cada uma dessas práticas desportivas pode produzir alívio considerável a uma série de adversidades.

 

Um dos primeiros a usar abertamente o yoga como técnica terapêutica, foi o professor Hermógenes conhecido como pioneiro da yogaterapia no Brasil. O professor em nossas conversas sempre mostrou uma lucidez muito grande, no que se refere ao propósito da prática de yoga, ele concorda que yoga é um darśana com função própria, mas que ao longo do tempo acumulou diversas técnicas até se transformar no que hoje é chamado de yoga moderno. e esse novo yoga vem se afastando aos poucos da sua função inicial, dando origem a novas e entusiasmantes possibilidades nessa área.

 

A prática de yoga foi criada, com o intuito de resolver uma questão que aflige o ser humano desde sempre. Podemos entender melhor, quando recorremos à literatura especializada. A Bhagavad Gītā, por exemplo, define yoga como separação. Como assim, você deve estar pensando? Se conhece um mínimo de yoga, já escutou que essa palavra significaria união, quase consigo ver você que está lendo isso, se retorcendo todo aí na cadeira (caso esteja numa). No verso 23 do capítulo 6 da Bhagavad Gītā, Kṛṣṇa afirma que o “yoga é a separação da união com a dor” (taḿ vidyād duḥkha saḿyoga viyogaḿ yoga saḿjñitam).

 

Pois bem, o yoga, não é filosofia, ele não faz perguntas como: quem somos nós? O que viemos fazer aqui? Qual o propósito da vida? Isso a filosofia ocidental tenta resolver a milênios sem sucesso algum, pois não se propõe a dar nenhuma solução mesmo. Contudo, o yoga oferece uma resposta: acabar com o sofrimento!

Sim! O sofrimento da existência! A tão conhecida miséria existencial, isso por aqui, pois na Índia, essa “dor” tem nome, e é conhecida como kleśa.

 

A Índia nos apresenta um conceito chamado duḥkha traya, que tem o significado de miséria existencial tríplice, esta faceta da condição humana, acaba sendo o ponto de partida para a compreenção do yoga doutrinário de Patañjali e porque não dizer, grande influenciadora da nossa saúde mental.

A primeira miséria conhecida como ādhyātmika (causado pelo espirito) diz respeito ao sofrimento que vem de dentro ou mental como, por exemplo, algum tipo de carência, necessidade emocional ou mesmo pode ser produzido por você estar fora do seu dharma.

A segunda ādhibhautika (causado pelo fisico) é o sofrimento advindo da interação com outros seres vivos, como: doenças, parasitas, animais selvagens, plantas e até mesmo outros seres humanos.

A terceira ādhidaivika (causado pelo destino) é o sofrimento produzido pelas forças da natureza e que causam infelicidade como o frio, calor, chuva, enchente, furacão etc.

 

Das três misérias existenciais tríplices, é a primeira que mais nos interessa, isso não significa que ser sobrevivente de um ataque de animal ou mesmo de um tsunami, não seja traumático e provoque instabilidades na mente de quem passa por esse tipo de experiência.

 

Discernimento (viveka), pode ser uma boa ferramenta investigativa para combater ignorância (avidyā), trazendo a possibilidade de você não se identificar 100% com a sua dor. Por exemplo, uma pessoa que se define completamente pelas suas aflições, pode se apresentar muitas vezes como o “fulano” que tem um determinado problema. Tive um aluno que se colocava como alguém que tinha síndrome do pânico, e ele mal dizia o seu nome e já completava: “sabe... eu tenho sindrome do pânico”. Ou seja, ele se definia assim e também acreditava nessa definição. O exercício que foi sugerido, foi que ele reconhecesse tudo o que ele era, além disso. Começamos com coisas simples, como: você é um pedestre, você é um ciclista, você também é um aluno, você é um motorista. Com essas afirmações ele passou a perceber, que era muito mais do que aquela pessoa que tem algum problema, ou que esteja quebrado. Você tem que trabalhar para garantir que não vai se identificar com o sofrimento. Claro, nada disso substitui o apoio psicológico, é importante muitas vezes, reconhecer que você precisa mesmo, é de ajuda.

 

O treinamento sistemático para controlar a mente e o comportamento, produzem esperança (āyati) como projeção de futuro sem apego (vairāgya) e aniquiladora da dureza do existir. A experiência da dor (duḥkha), provoca uma aversão (dveṣa), e essa por sua vez, impede uma vida plena. Gosto de pensar, que o potencial já existe dentro de cada pessoa. Às vezes encontro um pragmático (cabeça dura) que é incapaz de criar outra realidade a não ser a vidinha miserável que já está vivendo, criando uma espécie de miopia comportamental. Para estas pessoas gosto de contar uma lenda atribuída ao Michelangelo. Conta-se que ao ser questionado sobre como conseguiu fazer a gigantesca escultura de David, em um só bloco de mármore de quatro metros e meio, ele teria dito: "Foi fácil; fiquei um bom tempo olhando o mármore, até que nele enxerguei o David. Então, peguei o martelo e o cinzel e tirei tudo o que não era David".

 

Quando falamos da palavra miséria pensamos sempre em algo material, como uma escassez de recursos ou uma falta financeira. Contudo estou falando da miséria existencial que nos leva até uma vida sem contato com os sentidos, uma vida sem sabor, sem gosto, sem cores. Uma profunda mendicância espiritual, causado pelo infortúnio de uma vida vazia, monótona, árida e anestesiada. Uma vida sem propósito ou sem dharma, produz uma crise, um rearranjo estrutural, fazendo o indivíduo passar por um acerto de contas com a sociedade e consigo mesmo.

 

Um dos livros mais antigos de yoga, e porque não dizer, da humanidade, chama-se Yoga Sūtra, ele aborda o tema sofrimento (kleśa), e propõe uma alternativa para dissimular o desespero diante do absurdo, que muitas vezes é a existência. O absurdo que o Yoga Sūtra se refere, é avidyā, ignoramos que sofremos e acabamos fingindo que somos felizes.

 

Algumas pessoas estão tão inadequadas a si mesmas, que passam a vida tentando ser outra pessoa, é o que chamamos de madāvat embriaguez. No mundo inteiro, o número de

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